Referências Históricas Nova Lima / São Sebastião das Águas Claras
Conheça parte da história de São Sebastião das Águas Claras
(*texto contido no dossiê de tombamento municipal da Capela de São Sebastião)
O povoado de São Sebastião das Águas Claras originou-se na primeira metade do século XVIII, fruto da exploração aurífera da região conhecida como “Descoberto dos Macacos”. A extração de ouro, entretanto, não foi o único fator de fixação populacional no arraial, estando o comércio em posição de destaque como atividade de apoio e responsável pelo crescimento da localidade. No livro “Tropas e Tropeiros na Formação do Brasil”, José Alípio Goulart, faz uma descrição minuciosa do que seriam estes pequenos focos urbanos, verdadeiros embriões das comunidades que se formariam em toda as Minas gerais à partir do Séc. XVIII: “Tão logo organizado o tráfego de tropas de muares evidenciou-se a necessidade de se levantarem aqui e acolá, rústicas palhoças, simples coberturas de palha sobre paus–a pique, sem paredes, para abrigo das cargas e dos homens ao fim das jornadas diárias. Era o pouso.”
Segundo o pesquisador Bráulio Carsalade Villela, um dos fatores que contribuiu para o surgimento do arraial foi a sua localização, próxima ao antigo “Caminho da Bahia”, que ligava o território de Minas Gerais ao sertão baiano: “De qualquer modo, todos os indícios levam a crer que o Arraial de São Sebastião dos Macacos tenha tido origem em um trecho de um caminho de intenso uso, não bastasse sua conformação típica. Por isso mesmo, essa via primitiva veio a se tornar uma estrada.”. E, continuando sua narrativa, justifica: “Pela estrada circulavam as mercadorias no dorso das tropas. Essas tropas necessitavam, por sua vez, de pontos de parada, dormida, descanso, trato dos animais e dos tropeiros. O arraial oferecia as condições ideais para isso. Lá corria, dando vau, o leito do ribeirão calmo e preguiçoso, fornecendo a água indispensável para tal atividade.”
A afirmação acima atesta a fundamental importância da existência de entrepostos de abastecimentos capazes de suprir as necessidades básicas que a dura empreitada do garimpo demandava, pois, ocupados que estavam com a extração do rico mineral, os garimpeiros não podiam cuidar de sua própria subsistência, dependendo de um aparato de apoio baseado no comércio.
Dentro deste quadro, a localidade de Macacos foi se formando, alicerçada na extração do ouro, nas atividades de pequena agricultura e comércio de gêneros de primeira necessidade. Repleta de cursos d’água a região se mostrou promissora para o garimpo, e já em 1740, constava como arraial no censo populacional da Vila de Sabará. As primeiras datas de que se tem notícia, foram concedidas no ano de 1765, tendo durado a extração do ouro até meados do século XIX. Durante este período “Macacos chegou a ser uma povoação animada”, tendo sua população crescido de 138 “almas” em 1822 para 255 em 1837”.
Entretanto, como em toda região mineradora, o ouro tornou-se escasso e sua extração cada vez mais difícil, levando a localidade a um processo de estagnação e declínio. Macacos, como outras tantas localidades de Mina Gerais, conheceu então o ostracismo e o esquecimento e, durante décadas, a região ficou relegada ao esquecimento, mantendo suas características construtivas praticamente inalteradas, sem maiores comprometimentos em sua conformação urbana. Este quadro mudou radicalmente nas últimas 3 décadas, quando a atividade turística começou a se desenvolver na localidade.
Diante de todo esse processo cultural e histórico extrativista no qual o Distrito de Macacos vem sendo submetido há décadas, enfraqueceu-se em grande parte a sua cultura material ( arquitetura, bens móveis, vestimentas, artesanato, artefactos e acervos) como também de sua cultura imaterial ( festas, ritos, histórias, cantigas, religiosidade, modos próprios de fazer e saberes originados da tradição oral) fato cada vez mais comum ocorrido em comunidades similares diante da fragilidade e dos estímulos constantes da sociedade de consumo e do desenvolvimento econômico das grandes cidades em pressão à existência cultural destas comunidades locais.
Ainda assim, pelo fato do povoado de Macacos ter sido originado na segunda metade do século XVII, possui uma história cultural bastante significativa, guardada e cuidada através dos tempos pelos mestres de tradição oral da localidade e disseminada timidamente por uma rede de transmissão informal de saberes, fortalecida através dos tempos e alimentada hoje pelo Ponto de Cultura Kairós e pelos moradores locais como estratégias de proteção cultural.
Em função desta realidade, desde 2003 o Instituto Kairós desenvolve na comunidade ações que visam o planejamento ambiental e ampliam a participação sócio-cultural e econômica da comunidade nos processos de desenvolvimento local.
“O arruamento principal do Distrito de São Sebastião das Águas Claras, vem sofrendo rápida descaracterização em função do turismo mal planejado. A degradação da paisagem urbana deve-se, principalmente, à substituição das construções originais por novas edificações ou pela adaptação a novas funções, especialmente bares e restaurantes. Diante deste quadro torna-se urgente a adoção de um planejamento que zele pelo patrimônio urbano edificado do Distrito, especialmente dentro do entorno imediato à Capela. Deve-se portanto, criar parâmetros que ordenem as intervenções, assegurando assim, a integridade estética do Bem tombado.”



