Território e Comunidade

Contexto Social local

A localidade de São Sebastião das Águas Claras se formou no século XVII pela necessidade de exploração do ouro e a atividade minerária foi durante séculos a principal atividade econômica na região. Hoje, Distrito do Município de Nova Lima, também conhecido por “Macacos”, está inserido na APA- Sul, expressiva área de preservação ambiental com grande relevância natural e histórica para Minas Gerais. Pertence à bacia do Ribeirão dos Macacos que é responsável por grande parte dos mananciais de água que abastecem Belo Horizonte estando localizada em um complexo ambiente de mineração.

É um vilarejo com pouquíssima infra estrutura urbana embora seja uma área de grande vocação turística. O antigo arraial “Descoberto dos Macacos”, hoje, conhecido apenas por Macacos, localiza-se incrustado na confluência de vários córregos formadores do Ribeirão dos Macacos, sendo esta a razão de seu nome. No entorno do antigo núcleo , loteamentos , condomínios ,chácaras, sítios , fazendas , pousadas , foram e vão até hoje se instalando, o que gera o desafio de ações voltadas para o fortalecimento social, cultural e econômico da comunidade, ações de macro planejamento e ordenamento turístico.

Nas últimas décadas, a atividade turística começou a se configurar na localidade. O acelerado avanço econômico desenvolveu no distrito uma vocação para o trabalho de prestação de serviços, mas por outro lado encobriu vários processos culturais e produtivos na comunidade, premissas básicas para preservação da identidade local. Desde a década de 80, verifica-se um grande crescimento urbano no povoado, fruto de seus recursos naturais e da proximidade da localidade com a capital. Tal situação se reflete negativamente também nos âmbitos das relações culturais, sociais e econômicas, uma vez que grande parte da comunidade envolve-se em tais atividades de modo informal e com baixa qualificação.

Diante de todo o processo cultural e histórico no qual o Distrito de Macacos vem sendo submetido há décadas, enfraqueceu-se em grande parte a sua cultura material ( arquitetura, bens móveis, vestimentas, artesanato, artefactos e acervos) como também a sua cultura imaterial ( festas, ritos, histórias, cantigas, religiosidade, modos próprios de fazer e saberes originados da tradição oral) fato comum ocorrido em realidades similares diante da fragilidade e dos estímulos constantes da sociedade de consumo e do desenvolvimento econômico em pressão à existência cultural das inúmeras comunidades locais espalhadas pelo país.

Embora seja um lugarejo próximo ao centro urbano do município de Nova Lima e à Belo Horizonte, e aos benefícios que esses centros desenvolvidos podem oferecer, a população tradicional em sua maioria, (que possui renda per capta de até 1 salário mínimo) fica em sua grande parte excluída desses possíveis benefícios. A carência de transporte coletivo é grande, o que impede o deslocamento fácil dos moradores a regiões mais desenvolvidas e o acesso a diversos bens culturais disponíveis nos maiores centros limítrofes.

Enfim, a carência de equipamentos, como escolas (só existe uma de ensino de 1ª a 4ª série), centros culturais, teatros, clubes, cinemas, foi o que motivou a criação e a prática do Instituto Kairós no território, que desde 2002 vem realizando ações e desenvolvendo tecnologias sociais que estimulam a formação de redes de comunicação, educação e cultura na comunidade bem como o seu desenvolvimento sócio ambiental, turístico e econômico.

São Sebastião das Águas Claras apresenta-se sob uma infinidade de interesses que representam fragmentos isolados de uma possível, mas às vezes ainda distante coletividade.Temos apenas numa primeira análise, a comunidade nascida no arraial, os sitiantes de fim de semana, os comerciantes e donos de pousada, empreendedores externos, especuladores imobiliários, a população não nascida mas residente em Macacos, os turistas de finais de semana, agentes externos como empresas públicas e privadas, mineradoras e outros grandes grupos de interesse reunidos sob um mesmo território, mas que nem sempre apresentam-se em conjunto de forma equilibrada e harmônica para a construção de um espaço compartilhado.

Agir através de “ sistemas dinâmicos e interativos” e não de “ações isoladas” foi a proposta principal que norteou o nascimento de nossa instituição, contribuindo assim para a busca do universo comum que “costurasse ” esses diversos interesses, num primeiro momento aparentemente desencontrados, numa grande teia, afirmando a malha coletiva que é a vida comunitária.

Desde sua fundação o Instituto Kairós vem reposicionando na comunidade o papel e a relevância dos saberes dos mestres de tradição oral e das inúmeras formas que todo este conhecimento e experiência podem ser úteis para a reconstrução das práticas e das relações de identidade do lugar (no resgate de sua memória afetiva, de sua cultura material e imaterial, e de seus valores mais fundamentais). Incentivando os moradores a desenvolver um diálogo sistêmico com o seu ambiente, buscou-se desde o princípio a interligação entre o conhecimento popular e as práticas locais de produção.

Com a rede social e de transmissão oral fortalecida e a promoção de sua ação intergeracional, está hoje sendo possível ressignificar na comunidade o conhecimento tradicional gerando instrumentos compartilhados entre as gerações capazes de fortalecer os processos produtivos locais, o desenvolvimento econômicoc solidário, a cadeia turística, o cotidiano e a história de vida local. 

Há dois anos as crianças passaram a fazer apresentações musicais e artísticas dentro da Igreja e em espaços públicos da comunidade, os vídeos gerados de contação de histórias começaram a ser exibidos nos muros da comunidade ampliando seu alcance e levando aos mestres um reconhecimento público e formal; os grupos produtivos aproveitando diversos desses fazeres em suas práticas e produtos, muitas vezes modificando receitas, técnicas e elencando novas/antigas formas de produção; o poder público municipal reconhecendo os saberes das raizeiras e benzedeiras nos procedimentos oficiais de saúde incorporando no SUS a prática da fitoterapia e das plantas medicinais. No sistema formal de educação foi reconhecida a importância dos mestres de tradição oral na escola e consolidada uma parceria com a Secretaria de Educação do município, onde foi previsto no plano político pedagógico para 2009 a transferência da pedagogia griô para outras escolas do município. Enfim, inúmeros são os exemplos que podemos dar da transformação social que as ações do Ponto de Cultura vêm gerando na comunidade de Macacos. 
 
Isso tem possibilitado à comunidade um processo de educação informal onde se fazem existir crianças impregnadas de sonho e de orgulho de serem quem são e de pertencerem a um mundo onde sua ancestralidade seja repleta de significância e de valores reconhecidos. O que se promove a partir daí é uma a inversão da lógica oficial de todo o arranjo político / institucional instaurado na sociedade, onde, a comunidade, fortalecida em sua identidade pela valorização de seus saberes e modos de fazer, passa a ser protagonista do desenvolvimento do seu próprio território e influenciar a construção de ações de políticas públicas locais.


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